Porque é que deixaste de escrever?
A pergunta foi feita no dia seis do cinco de um mil e qualquer coisa de tantos.
Aliás, a pergunta não foi feita, foi pensada Foi prensada entre as duas metades do cérebro ou da cabeça ou da alma ou do homem Se é que ainda se chama homem a algo que já nem metades tem.
A pergunta foi prensada lá atrás de uma testa cansada que se encolhia de tanto se descobrir.
A pergunta Porque é que deixaste de escrever foi prensada no tal dia seis do cinco por José Longroiva, de oitenta e poucos
Ou de muitos e três
anos.
E foi prensada por ele e ali ficou porque a boca já não mexia.
Já se lhe tinha secado a língua e as beiças e a força que aguenta o pescoço.
Não é que ele não se quisesse perguntar, mas não conseguia.
Querer-se perguntar, queria. Tanto que o fazia dia após dia, nos muitos que lhe enchiam a vida. Mas não conseguia cuspir uma única sílaba. Tossia. E limpava as lágrimas da tosse, enquanto a pergunta se lhe colava nos pulmões. Uma gosma cancerígena que escalava pelas veias e pelos buracos Pelos ossos e pelos nervos Secos Esqueléticos Teia que arranha a carapaça de um bicho que seremos.
José Longroiva
de muitos e poucos anos,
no dia seis do cinco,
olhava para a mão e prensava Porque é que deixaste de escrever?
Olhava e olhava. Olhava. Com aqueles olhos que a terra não havia meio de comer. Olhava e não fazia mais nada. A cabeça não levantava, a mão Um cão adormecido nos pés de uma viúva não acordava, e o pensamento ali ficava. Prensado na pergunta Porque é que deixaste de escrever
E na resposta.
Na resposta que também lá estava Prensada
E que esticava os braços contra uma porta De madeira forte feita Por onde nenhuma pergunta passava.
E assim vivia José Longroiva
Prensado
Entre uma pergunta que não sai e a resposta que nunca a deixará sair
Porque anda a ver se lhes consegue tirar o ar.


Quantas as vezes as que se questionam tanto o poeta como o prosador, quer pela secura das suas palpitações, pela brancura das suas folhas ora pela imobilidade que lhe petrifica as articulações. De resto tudo vai e tudo vem, bastando à perseverança daquele a quem fica, a sapiência de aguardar pela desejada chegada.
17 de Maio de 2010 13:34
OLHA LÁ, PORQUE É QUE DEIXASTE DE ESCREVER? TÁS PARVO OU QUÊ?!
5 de Agosto de 2010 15:43
Agora pergunto eu..., utilizando as tuas palavras...
"Porque é que deixaste de escrever?"
Tá na hora de recomeçar... Vá atão...
Mummy
19 de Agosto de 2010 15:01
Em breve, em breve!
Ando a preparar as palavras ; )
Beijos e abraços.
19 de Agosto de 2010 15:11
tenho saudades de te ler...
14 de Janeiro de 2012 22:12