Seguidas
Eram Sete salas divididas por
Seis paredes.
Eram sete salas seguidas as que Fredo atravessava todas as noites e todas as manhãs.
O Museu abre às nove
Encerra às nove
As outras nove, Fredo
Ah, bom! Que eu via que não saía daqui.
E a essa hora todas as salas que guardas devem estar fechadas
As sete.
Com as oito portas.
Não, seis eram as paredes, concentra-te homem.
Desculpe.
Fredo concentrou-se. Pegava hoje
Naquele hoje, no dele
Concentra-te.
Eram portanto sete salas seguidas. Oito portas para abrir de manhã
As mesmas para fechar à tarde.
Com os dedos gordos na chave
A suar das inseguranças.
Fredo até fez um esquema, que se pode ver em baixo:
(aqui está um esquema com sete quadrados seguidos, separados por pequenos milímetros. O quadrado do meio é maior. De cada lado estão três quadrados mais pequenos, iguais. Nas extremidades dos primeiros quadrados de cada lado estão dois traços que dizem porta. A palavra porta aparece também em cada divisão dos restantes quadrados. Aparece, portanto, oito vezes, a palavra porta. Este esquema está desenhado com pouca intenção e parece um relógio sem mostrador. Em baixo, poucas palavras. Nove abrir. Outras nove, fechar.)
E assim foi.
Sempre, desde que se lembrava.
E hoje,
Neste hoje,
(concentra-te)
Passados 57 anos a abrir as mesmas portas,
Passados 57 anos a fechar as mesmas portas,
O velho Fredo
O da farda carrancuda que já não levantava os olhos aos olás
iria faze-lo pela última vez.
Mas só se lembrou de tal acontecimento depois de as ter aberto.
Logo, e isto chegou-se-lhe ao espírito como uma pontada na mioleira,
nunca mais poderia abrir as oito portas pela última vez na sua vida.
Poderia! se as penúltimas contassem.
Mas, como as contou como penúltimas, não se conseguia atraiçoar tão facilmente.
Iria então, fazer força a dobrar para as fechar.
As últimas.
Durante o dia,
Os colegas novos a acenar com respeito
As palmadas nas costas
As pessoas que nunca o viam, iguais. Sem o verem.
Os avisos, hoje infrutíferos.
As vontades, misturadas.
A cadeira, como ele, teimosa, com medo da reforma, lá segurava um bocado de papel ao chão. Não fosse ele fugir e parecer lixo.
E os ponteiros do grande relógio com cordas e roldanas para chegarem rapidamente às
NOVE.
Nove.
Os colegas deixaram-no fazer tudo.
Ora são nove, vamos lá.
Caminhou o corredor todo com os mesmos setenta e nove passos Com o eco dos sapatos nos quadros Com os olhos dos quadros no chapéu Com a cabeça nas portas.
Fechou a última porta.
E quando aqui agarraste um puto com a máquina?
Dez passos.
O busto do General.
Até amanhã, meu velho.
Segunda porta fechada e Outros dez passos.
Os gregos sem braços e sem pernas.
Fecha a terceira porta.
Mais dez passos.
As paisagens amarelas de não-sei-aonde.
Fecha-as.
E agora são vinte Os passos.
O grande tecto Magnífico
Nunca lhe chamei magnífico
MAGNÍFICO
Para o ar.
Fechou a porta.
Mais dez passos e já não viu nada.
Fechou a porta. Faltam duas.
A sala onde deixaram a pintura que tinham roubado.
Quem é que queria roubar isto?
Paguem-me antes a mim e dou-lhes as cangalhices que estão a morrer no armazém.
Fechou a porta.
Suspiro.
Esta são só nove pa…
…
Espera.
Não, não são os passos. Esses eu sei que são nove.
A última sala tinha nove passos, sempre teve, não é isso.
Não é isso!
A sala das paisagens.
Não se lembrava de a ter fechado.
Faltava essa?
Se calhar faltava essa.
Nunca tinha aberto as portas antes das nove, nunca antes tinha voltado atrás.
Cada porta tem códigos, sistemas de alarmes, fumos, coisas, uma con-fu-são de maquinarias.
Porra!
Eu não me lembro da porra das paisagens.
Recapitula, Fredo.
Sete salas mais seis paredes com oito portas
E os setenta e nove passos que são dez em cada uma Menos na do meio que são vinte e nove nesta última
Que agora me parece uma inutilidade de sala porque não sei se a outra está fechada
E agora a outra é que é importante.
Porra!
Eu não me lembro.
Respiração e a cabeça a pensar como os pés, devagar.
Concentra-te.
Fechaste a sala das paisagens.
Fechaste a porta da sala das paisagens?
Concentra-te.