Quarta-feira, Outubro 07, 2009




Seguidas

Eram Sete salas divididas por

Seis paredes.


Eram sete salas seguidas as que Fredo atravessava todas as noites e todas as manhãs.


O Museu abre às nove

Encerra às nove


As outras nove, Fredo

Ah, bom! Que eu via que não saía daqui.


E a essa hora todas as salas que guardas devem estar fechadas

As sete.

Com as oito portas.




Não, seis eram as paredes, concentra-te homem.

Desculpe.



Fredo concentrou-se. Pegava hoje

Naquele hoje, no dele


Concentra-te.



Eram portanto sete salas seguidas. Oito portas para abrir de manhã

As mesmas para fechar à tarde.

Com os dedos gordos na chave

A suar das inseguranças.


Fredo até fez um esquema, que se pode ver em baixo:


(aqui está um esquema com sete quadrados seguidos, separados por pequenos milímetros. O quadrado do meio é maior. De cada lado estão três quadrados mais pequenos, iguais. Nas extremidades dos primeiros quadrados de cada lado estão dois traços que dizem porta. A palavra porta aparece também em cada divisão dos restantes quadrados. Aparece, portanto, oito vezes, a palavra porta. Este esquema está desenhado com pouca intenção e parece um relógio sem mostrador. Em baixo, poucas palavras. Nove abrir. Outras nove, fechar.)



E assim foi.

Sempre, desde que se lembrava.


E hoje,

Neste hoje,


(concentra-te)


Passados 57 anos a abrir as mesmas portas,

Passados 57 anos a fechar as mesmas portas,

O velho Fredo

O da farda carrancuda que já não levantava os olhos aos olás

iria faze-lo pela última vez.

Mas só se lembrou de tal acontecimento depois de as ter aberto.

Logo, e isto chegou-se-lhe ao espírito como uma pontada na mioleira,

nunca mais poderia abrir as oito portas pela última vez na sua vida.

Poderia! se as penúltimas contassem.

Mas, como as contou como penúltimas, não se conseguia atraiçoar tão facilmente.

Iria então, fazer força a dobrar para as fechar.

As últimas.



Durante o dia,

Os colegas novos a acenar com respeito

As palmadas nas costas

As pessoas que nunca o viam, iguais. Sem o verem.

Os avisos, hoje infrutíferos.

As vontades, misturadas.

A cadeira, como ele, teimosa, com medo da reforma, lá segurava um bocado de papel ao chão. Não fosse ele fugir e parecer lixo.

E os ponteiros do grande relógio com cordas e roldanas para chegarem rapidamente às


NOVE.



Nove.


Os colegas deixaram-no fazer tudo.


Ora são nove, vamos lá.


Caminhou o corredor todo com os mesmos setenta e nove passos Com o eco dos sapatos nos quadros Com os olhos dos quadros no chapéu Com a cabeça nas portas.


Fechou a última porta.



E quando aqui agarraste um puto com a máquina?


Dez passos.

O busto do General.


Até amanhã, meu velho.

Segunda porta fechada e Outros dez passos.


Os gregos sem braços e sem pernas.

Fecha a terceira porta.

Mais dez passos.


As paisagens amarelas de não-sei-aonde.

Fecha-as.


E agora são vinte Os passos.

O grande tecto Magnífico

Nunca lhe chamei magnífico


MAGNÍFICO

Para o ar.


Fechou a porta.

Mais dez passos e já não viu nada.


Fechou a porta. Faltam duas.


A sala onde deixaram a pintura que tinham roubado.

Quem é que queria roubar isto?

Paguem-me antes a mim e dou-lhes as cangalhices que estão a morrer no armazém.


Fechou a porta.


Suspiro.


Esta são só nove pa…



Espera.


Não, não são os passos. Esses eu sei que são nove.

A última sala tinha nove passos, sempre teve, não é isso.

Não é isso!



A sala das paisagens.


Não se lembrava de a ter fechado.


Faltava essa?


Se calhar faltava essa.


Nunca tinha aberto as portas antes das nove, nunca antes tinha voltado atrás.

Cada porta tem códigos, sistemas de alarmes, fumos, coisas, uma con-fu-são de maquinarias.


Porra!


Eu não me lembro da porra das paisagens.

Recapitula, Fredo.


Sete salas mais seis paredes com oito portas

E os setenta e nove passos que são dez em cada uma Menos na do meio que são vinte e nove nesta última

Que agora me parece uma inutilidade de sala porque não sei se a outra está fechada

E agora a outra é que é importante.


Porra!

Eu não me lembro.


Respiração e a cabeça a pensar como os pés, devagar.


Concentra-te.


Fechaste a sala das paisagens.



Fechaste a porta da sala das paisagens?


Concentra-te.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009



As Estações têm sempre este cheiro, não é?


Perguntava ela Não é

Não por perguntar mas para os prolongar Para adiar o mais difícil A partida e tudo o que os iria partir.



Cheira a carril, não é?


Respondia ele Como sempre respondia Ele

Encostado à vontade de sempre lhe responder e nunca deixar uma palavra dela sem chão.

Respondia ele Cheio de medo como ela

De se partirem ao meio.

Eles que eram tão única coisa que o meio era difícil de achar e agora fácil de partir.


Isso mesmo.

A ela cheirava-lhe aos por ondes ia passar.

Às terras que ia rasgar e as curvas que o fumo antes fazia.



Desta vez deixou-a em silêncio, completamente esmagado pelo barulho simples das malas no cimento.

É esta a carruagem.

Vai com ela, não a percas.

Sim, é esta. E agora como nos despedimos?


Como se despedem as pessoas que não se querem despedir?


Olha fazemos assim

Ele A lembrar-se do Pai quando contava histórias da Guerra.


Vou-te dar o maior beijo que alguma vez dei, para que o sintas lá Todos os dias. Um que aguente meses. Um que aguente montes e vales. Um que aguente o destino. Um que nos aguente bem Que aguente tudo.

Ela a esperar a lágrima e ele a esperar Não te enganes.

E assim fizeram e ficou tudo entre eles.


Um sinal do comboio e uma urgência.



Amo-te como nunca e como sempre e como sempre achei que se poderia amar alguém

E muitos mas amores e acenos e expressões inexplicáveis

De quem receia que aquela despedida seja mesmo isso.

Ela a entrar para o comboio atrasada e apressada As janelas a passar e ele atrás delas.


Ainda a vê em pé a baixar a cabeça para o adeus.

A mala maior que ela e as pessoas que a ignoram

Jornais abertos e sorrisos fechados.

As janelas que passam e as portas também.


As pernas que desistem e o Finalmente do cheiro a carril.

A estação que agora, sem ela que já foi, não faz sentido algum.

Só cheia de um mundo que ficou para trás.

E que por isso não é mundo nenhum.


Parou.

Olhou-se.

Por dentro.

E por dentro não se deixou ficar.

Desatou a correr.


Entrou no carro e mais uma vez o pai

Olha que esse anda bem Não te estiques.


E corria.


Abriu a porta e a chave rodou. Uma marcha atrás e uma primeira à frente Volante de lado Chiar na Estrada e na rua.


Pôs-se a correr por dentro enquanto as rodas corriam por si.

A cidade confusa cuspiu-o para fora Lançado na pista.

Passou os outros todos Em frente Sempre de pé pesado e janela fechada.


Passou horas e horas.

Pontes e Túneis

Camiões e camiões Famílias de putos brincalhões.


As cegonhas e os gaviões.


Os sinais e os tractores Os barulhos e os clamores.

Passou céus e as suas cores O tempo e a dor.

Ninguém o viu ou ouviu Nem ele

Sempre em frente Indiferente ao que o mundo fazia então.

Pronto a chegar lá apenas por sua mão.



O comboio parou a parede que lhe tremia na cabeça.

Os cabelos nos olhos Os olhos fechados E os velhos a ir buscar os sacos.


O cheiro a carril.


A mala pesada das pernas bambas e o desconhecido por conhecer.

Quer ajuda menina, quero sim, obrigado. Se precisar de boleia chame-nos que aqui não há muita. Obrigado é muito gentil. Logo se vê.

Agora quero é sair.



E saiu.

E quando o fez, saudosa de tudo, numa estação vazia De mundo que ainda não se fez,

pensou nele,

E no que não queria deixar partir, partindo ela.


E do meio do desconhecido saltou ele.

Ainda de pulmões nos olhos Ainda de cara vermelha Ainda de coração nas mãos.


O maior sorriso que alguma vez lhe vira surgiu

E com ele a certeza

Que com um pais inteiro pelo meio, não há forma deste meio partir.


E ali sim Esse meio tornou-se coisa nenhuma.

Eram eles sempre um princípio

Que prometeu nunca ter fim.

No tal beijo que aguentava tudo.



Sexta-feira, Julho 31, 2009



O Dr. Polaris dizia Lá da cabeça da mesa, naquela sua luz de vela perfeita, por entre as barbas e as certezas


Nunca se pode confiar em ninguém.


No meio das sobrancelhas levantadas, das conversas abruptamente interrompidas e dos olhares expectantes, o Dr. Strangecraft lançou de volta a discussão de forma quase dissimulada, na sua rouquidão.

Que difícil que deve ser viver assim Polaris. Sempre de pé atrás.


A sala calou-os.


Os ilustres convivas esperavam qualquer coisa de Polaris, que se limitava a agitar o Brandy numa lentidão peculiar, tão característica sua que já nem era de se notar.

Polaris pousou o copo e enrolou a longa barba com os dedos.


Toda a mesa, com nove ou dez sombras de homem, parecia aguardar a reacção do Doutor. Uns, mais que outros, faziam de conta que se distraiam Com os restos das sobremesas, com as migalhas espalhadas, com os restos do vinho nos copos Com tudo e mais alguma coisa que não os inscrevesse ali.


Strangecraft procurava a resposta que havia de sair do homem. Franzia a testa como se forçasse uma frase que pudesse ripostar. Ele, o tão seguro de si, terrivelmente inseguro dos outros.


Polaris Aparentemente alheado Limpou a garganta e sentou-se com a outra perna no chão.

(A mesa olhou-o e esperou de Cotovelos e calcanhares em desassossego).


Ao pegar no copo, tossiu e riu-se para todos.


Foi o melhor Brandy que alguma vez bebeu.



Quarta-feira, Julho 22, 2009


Só voltei a mim quando a primeira terra, mais húmida, me apanhou a cara e o sabor. Acordei com o ritmo do ferro na areia a raspar e a agarrar o que podia para me atirar para cima. A tempo de perceber que algo me cobria.


E quando voltei a mim estava de uma sonolência tal que nada fiz para me levantar.


A perfeita consciência de saber que ali deveria ficar Silencioso Imóvel num receio de me apagar Mas numa ânsia Nunca antes vista de Enfim descansar.


Ora ali fiquei Ainda a tempo de perceber a luz escassa de uma lamparina Velha de enterros da idade das viúvas

Que me mostrou as pernas uma em cima da outra, os braços, curvados Cravados no peito e uma camisa amarelada de suores antigos.



As vozes lá em cima Uns motores e eu num Ora deixa-me estar mudo que me justificava qualquer dúvida

Qualquer pânico que se me aparecesse por só ver o mundo num rectângulo cada vez menor.


É apaziguante saber que não precisamos de fazer nada.


Enfim os músculos descansam e falam connosco. Finalmente nos olhamos nos olhos e acenamos.



Foi isto.


Foi isto de para lá e para cá. De pessoas maiores e menores Dias iguais.

Isto de se esperar e correr atrás. Fugir e deixar-se apanhar. Julgar-se e dar-se a julgar.

Isto de nunca parar de rodar.



(a terra cada vez mais seca esconde-se-me nos bolsos Mistura-nos e faz de mim mais mundo que alguma vez fui)



Ora foi isto de assim Por aqui passar.


Levo a mão aos cabelos que correm para a cara Acordados e asfixiando

Sinto-me ainda homem e capaz de assim me mostrar.

Levo a mão até onde o peso me deixa e descubro ao que nunca vou voltar.

Foi isto.


Mil imagens no cheiro a chão. Outras mil no pouco ar que mantém o coração.

Aquela e aqueloutros

Todos no mesmo sítio

Expostos Prontos para o acenar.


E eu

Valente

Tapado de pés Estradas e ventos.

Sorridente por ser isto e muito mais Por não ser nada mais

E muito por saber o que foi tudo

Deixo-me aqui estar.



Segunda-feira, Julho 06, 2009

Uma planície pode ser um vasto pinhal Se contigo dele falar.



Contigo basta imaginá-lo

E esperar o imediatamente após

Quando a nós a primeira sombra chegar.


Uma planície pode ser cidade E abarrotar.


Pode ser mar bravo Barco encalhado.

Se de um qualquer lado um de nós o avistar.


As nuvens já são terra molhada

Os palcos Palmas

Os corpos Trouxas de almas

Daquelas frouxas que se deixam apanhar.



Dos vasos já crescem plantas sem nada plantar.

Das paredes nascem janelas Ao mesmo tempo que nelas

Não se luta por ar.


As mãos sempre tiveram mãos

E mais mãos com coisas de sempre para agarrar.



E nada tem hora marcada

Embora espere a toda a hora

Por aquele Agora sim Deixa-te ficar.



Uma planície é um vasto pinhal

Se assim a decidirmos chamar.



Canção dos deitados na relva.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Mudei-me para outro lado

Quando quis mandar-me para o outro lado do globo.

 

Atirado por mim E pela inconstante sensação de falta

Com que culpo os outros,

Sabendo que Se há culpa é minha

E deste meu lado do globo que teima em virar costas ao Sol.

 

Então mudei-me.

Bicicleta para cima

Bicicleta para baixo.

 

Pó nas pernas e camisa aberta

Peito feio

Feito do ar que nele bate e foge.

 

 

Mudei-me e vivo de cabeça para baixo.

Vivo por baixo.

 

 

Agora atiro-me às árvores

Com os braços abertos aos cortes

Atirado à sorte

Como os cães e as bruxas

 

Que ali me desenterram os ossos

E deles fazem casas.

 

 

 

Agora largo-me ao Sol

Descolo as solas e deixo-me cair

E ele

Ao contrario

Nem me vê quando me engole

Nem me prova o pensamento

 

 

Que me trai e que me prova Que o meu tal dissabor

Não era mais que areia nos olhos num momento.

 

E afinal o meu lado do globo

Ao menos sabia-me o sabor.



 Algo do amigo que foi.

Quarta-feira, Maio 20, 2009


Lembrei-me ontem no meu adormecer

(que é quando mais nos pensamos e lembramos)

de uma brincadeira solitária que tinha em miúdo, na sala dos meus avós.

 

Tirava os carrinhos todos da caixa, cheios das raspadelas que os deixavam com manchas cinzentas, e colocava-os lado a lado por baixo de um móvel alto com a televisão, alinhados como se estivessem numa comprida grelha de partida.

À frente deles, só o tapete grande, esticado até aos sofás, ao fundo, antes da varanda e da rua, habitualmente com Sol das quatro da tarde.

 

Os carrinhos eram muito diferentes. Em tamanho. Em cor. Em tipo.

Separava-os por facções óbvias: os bons contra os maus.

Os bons eram liderados pelo BX. Um citroen.

Os maus eram liderados por um camião.

Ambos eram chefes porque andavam bem. Tinham umas rodas mais largas que não se prendiam nos fios do tapete. Deslizavam melhor. Logo, davam o exemplo e incentivavam os mais fracos. Alguns deles sem uma ou outra roda.

 

A corrida era muito simples.

Após todos estarem alinhados, eu dava-lhes um empurrãozinho. E lançava-os. Cada um tinha direito a três empurrões. Após esses três, passava ao seguinte, e assim consecutivamente, até terem saído todos.

Tinham de ir até ao fim do tapete, onde normalmente batiam no chinelo do meu avô, e voltar ao ponto de partida. Sempre numa sequencia de três empurrões.

Durante o percurso, os que viravam com as ondas da passadeira, saíam. Os que batiam nos outros também saíam.

Os melhores chegavam ao fim.

 

Depois, o que eu fazia.

O camião parecia sempre o mais provável vencedor.

A princípio dava-lhe os maiores empurrões, para que chegasse mais longe.

O BX mantinha-se por perto, mas sem nunca estar à frente.

Mas nos metros finais

(que eram centímetros ali e quilómetros na minha cabeça)

(Vitória!)

o BX passava-lhe à frente, salvando a honra dos bons.


 

Apesar de não o pensar assim na altura, sendo o final sempre imprevisível, era eu que controlava a corrida. Era eu que, com a força dos empurrões, criava vencedores. Era eu que provocava os pequenos acidentes. Era eu que enchia de esperanças uns e encostava outros.

Era eu, com vinte e trinta carros espalhados pela sala, que via as possibilidades de vitória de cada um.

 

Foi disso tudo que me lembrei.

 

E foi com isso que pensei no que faço e nos projectos que tenho para fazer.

Foi com isso que pensei nas pessoas que nos rodeiam.

 

A atenção dada a cada carrinho é a atenção dada ao que nos rodeia. Às pessoas

Aos projectos

Aos gestos

Às decisões.

 

Sou eu que empurro mais ou menos cada coisa que tenho para fazer.

E sou eu que escolho a força com que empurro.

Quantos chegam à meta

Quantos batem nos outros.

 

E mesmo aquele que deixamos mais para trás no início, é capaz de ser o vencedor.

 

Mesmo que os maus ou os bons pensem que é completamente imprevisível.

 

 

Foi nisto que pensei.

 

Que, mesmo com tanta coisa na vida. Com tantos ao nosso lado, com tantos que passaram por nós, com tanto que aprendi,

 

Continuo de joelhos no tapete, a desarrumar a sala à minha avó, com o olhar meio adormecido do avô

 

Que em silêncio me dizia, certamente,

 

Dá mais um empurrãozinho aos bons.