Quinta-feira, Fevereiro 18, 2010

Porque é que deixaste de escrever?



A pergunta foi feita no dia seis do cinco de um mil e qualquer coisa de tantos.


Aliás, a pergunta não foi feita, foi pensada Foi prensada entre as duas metades do cérebro ou da cabeça ou da alma ou do homem Se é que ainda se chama homem a algo que já nem metades tem.


A pergunta foi prensada lá atrás de uma testa cansada que se encolhia de tanto se descobrir.



A pergunta Porque é que deixaste de escrever foi prensada no tal dia seis do cinco por José Longroiva, de oitenta e poucos


Ou de muitos e três

anos.



E foi prensada por ele e ali ficou porque a boca já não mexia.

Já se lhe tinha secado a língua e as beiças e a força que aguenta o pescoço.

Não é que ele não se quisesse perguntar, mas não conseguia.


Querer-se perguntar, queria. Tanto que o fazia dia após dia, nos muitos que lhe enchiam a vida. Mas não conseguia cuspir uma única sílaba. Tossia. E limpava as lágrimas da tosse, enquanto a pergunta se lhe colava nos pulmões. Uma gosma cancerígena que escalava pelas veias e pelos buracos Pelos ossos e pelos nervos Secos Esqueléticos Teia que arranha a carapaça de um bicho que seremos.


José Longroiva


de muitos e poucos anos,


no dia seis do cinco,


olhava para a mão e prensava Porque é que deixaste de escrever?


Olhava e olhava. Olhava. Com aqueles olhos que a terra não havia meio de comer. Olhava e não fazia mais nada. A cabeça não levantava, a mão Um cão adormecido nos pés de uma viúva não acordava, e o pensamento ali ficava. Prensado na pergunta Porque é que deixaste de escrever

E na resposta.



Na resposta que também lá estava Prensada

E que esticava os braços contra uma porta De madeira forte feita Por onde nenhuma pergunta passava.



E assim vivia José Longroiva

Prensado


Entre uma pergunta que não sai e a resposta que nunca a deixará sair

Porque anda a ver se lhes consegue tirar o ar.

Segunda-feira, Janeiro 25, 2010


Ela aos berros Aos berros

A chamá-lo

AOS BEEEEERROS


A arrancar-lhe os colarinhos da camisa A cola-los às orelhas

E ele de braços sem vidas Sem vida nos olhos Já sem ouvir nada.


E ela de boca aberta Com as entranhas e o ar a fugir-se-lhe pela garganta

A calar a cidade vindo de cima O ar

Ensanguentado como ele

O ferro a abafar o aço

E ela O que é que eu faço

Alguém me ajude O que é que eu faço


Aos berros.


Os outros deixaram as portas dos carros abertas

Vieram a correr Os sapatos cravando no alcatrão

As gravatas que voam

E os joelhos na poça ao pé deles E ela


Aos berros


Salvem-mo

Salvem-mo que não posso

Ai o que é que eu faço.



E ele Ali deixado pelo Não estava nada à espera

Sem os ossos que o aguentavam Sem o corpo Sem nada

Só pano

De pele e cabelo

Areia que escapava das mãos dela

A querer fugir para a terra E da terra para o ar E do ar para a boca dela.


Quieto.


Sem lhe ouvir os berros e os lamentos.

Cego.

Mudo.

Longe.



Fez da alma bicicleta E não ficou para ver.


Fugiu-lhe e deixou-a aos berros

Aos outros

E aos ecos das coisas que o mandaram ao chão.



Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

O dinheiro ou a vida.



Assim mesmo. De arma apontada e olhos nervosos

De um lado para o outro De um lado para o outro

Num beco com ruas dos lados. O céu numa linha lá em cima.


De um lado para o outro De um lado para o outro.


E o velho.

Com tão pouco tempo para pensar.

Assim mesmo.

A bexiga apertada O coração a mil E as pernas bambas

Respondeu-lhe como se lhe cuspisse na cara.



A vida.



Assim mesmo.



E o outro De um lado para

O QUÊ?


Isso mesmo

(Assim mesmo

O velho de mãos atrás nas costas)



Dá-me o dinheiro Não me ouviste Não estou para brincadeiras

E o cano enfiado na penca do velho.


Não.

O senhor deu-me duas hipóteses.

Está escolhido Que não sou homem de voltar atrás nas decisões.

Agora faça a sua parte e largue-me da mão Que não são dias para se estar parado.



O velho está maluco Mas vais-te tramar

Deves pensar que estás a falar com um qualquer que arranjou isto ontem

(A arma nas fuças do velho a saliva a escapar-se-lhe da boca Os olhos carregados de vermelho a saltarem e a fugirem prédio acima agarrados aos tijolos).



Caro senhor

Eu sei que não está para brincadeiras E eu também não.

Quer que me deite?

Prefere que me encontrem ali debaixo das pedras?

Posso virar as costas

Agora despache-se Peço-lhe.

(O sem perceber a esquivar-se da dúvida)



Não te rias da minha cara

(um pontapé cobarde nas pernas e o velho lá abaixo)


Se escolheste e está escolhido Então aqui vai O braço esticado (e um estalido).




Espere.


Susto



O que é agora?



Por favor, não te esqueças de mim.


O QUÊ?



Isso mesmo.


P-

Porquê?



Por nada.

Nunca o tinha dito.


Quarta-feira, Outubro 07, 2009




Seguidas

Eram Sete salas divididas por

Seis paredes.


Eram sete salas seguidas as que Fredo atravessava todas as noites e todas as manhãs.


O Museu abre às nove

Encerra às nove


As outras nove, Fredo

Ah, bom! Que eu via que não saía daqui.


E a essa hora todas as salas que guardas devem estar fechadas

As sete.

Com as oito portas.




Não, seis eram as paredes, concentra-te homem.

Desculpe.



Fredo concentrou-se. Pegava hoje

Naquele hoje, no dele


Concentra-te.



Eram portanto sete salas seguidas. Oito portas para abrir de manhã

As mesmas para fechar à tarde.

Com os dedos gordos na chave

A suar das inseguranças.


Fredo até fez um esquema, que se pode ver em baixo:


(aqui está um esquema com sete quadrados seguidos, separados por pequenos milímetros. O quadrado do meio é maior. De cada lado estão três quadrados mais pequenos, iguais. Nas extremidades dos primeiros quadrados de cada lado estão dois traços que dizem porta. A palavra porta aparece também em cada divisão dos restantes quadrados. Aparece, portanto, oito vezes, a palavra porta. Este esquema está desenhado com pouca intenção e parece um relógio sem mostrador. Em baixo, poucas palavras. Nove abrir. Outras nove, fechar.)



E assim foi.

Sempre, desde que se lembrava.


E hoje,

Neste hoje,


(concentra-te)


Passados 57 anos a abrir as mesmas portas,

Passados 57 anos a fechar as mesmas portas,

O velho Fredo

O da farda carrancuda que já não levantava os olhos aos olás

iria faze-lo pela última vez.

Mas só se lembrou de tal acontecimento depois de as ter aberto.

Logo, e isto chegou-se-lhe ao espírito como uma pontada na mioleira,

nunca mais poderia abrir as oito portas pela última vez na sua vida.

Poderia! se as penúltimas contassem.

Mas, como as contou como penúltimas, não se conseguia atraiçoar tão facilmente.

Iria então, fazer força a dobrar para as fechar.

As últimas.



Durante o dia,

Os colegas novos a acenar com respeito

As palmadas nas costas

As pessoas que nunca o viam, iguais. Sem o verem.

Os avisos, hoje infrutíferos.

As vontades, misturadas.

A cadeira, como ele, teimosa, com medo da reforma, lá segurava um bocado de papel ao chão. Não fosse ele fugir e parecer lixo.

E os ponteiros do grande relógio com cordas e roldanas para chegarem rapidamente às


NOVE.



Nove.


Os colegas deixaram-no fazer tudo.


Ora são nove, vamos lá.


Caminhou o corredor todo com os mesmos setenta e nove passos Com o eco dos sapatos nos quadros Com os olhos dos quadros no chapéu Com a cabeça nas portas.


Fechou a última porta.



E quando aqui agarraste um puto com a máquina?


Dez passos.

O busto do General.


Até amanhã, meu velho.

Segunda porta fechada e Outros dez passos.


Os gregos sem braços e sem pernas.

Fecha a terceira porta.

Mais dez passos.


As paisagens amarelas de não-sei-aonde.

Fecha-as.


E agora são vinte Os passos.

O grande tecto Magnífico

Nunca lhe chamei magnífico


MAGNÍFICO

Para o ar.


Fechou a porta.

Mais dez passos e já não viu nada.


Fechou a porta. Faltam duas.


A sala onde deixaram a pintura que tinham roubado.

Quem é que queria roubar isto?

Paguem-me antes a mim e dou-lhes as cangalhices que estão a morrer no armazém.


Fechou a porta.


Suspiro.


Esta são só nove pa…



Espera.


Não, não são os passos. Esses eu sei que são nove.

A última sala tinha nove passos, sempre teve, não é isso.

Não é isso!



A sala das paisagens.


Não se lembrava de a ter fechado.


Faltava essa?


Se calhar faltava essa.


Nunca tinha aberto as portas antes das nove, nunca antes tinha voltado atrás.

Cada porta tem códigos, sistemas de alarmes, fumos, coisas, uma con-fu-são de maquinarias.


Porra!


Eu não me lembro da porra das paisagens.

Recapitula, Fredo.


Sete salas mais seis paredes com oito portas

E os setenta e nove passos que são dez em cada uma Menos na do meio que são vinte e nove nesta última

Que agora me parece uma inutilidade de sala porque não sei se a outra está fechada

E agora a outra é que é importante.


Porra!

Eu não me lembro.


Respiração e a cabeça a pensar como os pés, devagar.


Concentra-te.


Fechaste a sala das paisagens.



Fechaste a porta da sala das paisagens?


Concentra-te.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009



As Estações têm sempre este cheiro, não é?


Perguntava ela Não é

Não por perguntar mas para os prolongar Para adiar o mais difícil A partida e tudo o que os iria partir.



Cheira a carril, não é?


Respondia ele Como sempre respondia Ele

Encostado à vontade de sempre lhe responder e nunca deixar uma palavra dela sem chão.

Respondia ele Cheio de medo como ela

De se partirem ao meio.

Eles que eram tão única coisa que o meio era difícil de achar e agora fácil de partir.


Isso mesmo.

A ela cheirava-lhe aos por ondes ia passar.

Às terras que ia rasgar e as curvas que o fumo antes fazia.



Desta vez deixou-a em silêncio, completamente esmagado pelo barulho simples das malas no cimento.

É esta a carruagem.

Vai com ela, não a percas.

Sim, é esta. E agora como nos despedimos?


Como se despedem as pessoas que não se querem despedir?


Olha fazemos assim

Ele A lembrar-se do Pai quando contava histórias da Guerra.


Vou-te dar o maior beijo que alguma vez dei, para que o sintas lá Todos os dias. Um que aguente meses. Um que aguente montes e vales. Um que aguente o destino. Um que nos aguente bem Que aguente tudo.

Ela a esperar a lágrima e ele a esperar Não te enganes.

E assim fizeram e ficou tudo entre eles.


Um sinal do comboio e uma urgência.



Amo-te como nunca e como sempre e como sempre achei que se poderia amar alguém

E muitos mas amores e acenos e expressões inexplicáveis

De quem receia que aquela despedida seja mesmo isso.

Ela a entrar para o comboio atrasada e apressada As janelas a passar e ele atrás delas.


Ainda a vê em pé a baixar a cabeça para o adeus.

A mala maior que ela e as pessoas que a ignoram

Jornais abertos e sorrisos fechados.

As janelas que passam e as portas também.


As pernas que desistem e o Finalmente do cheiro a carril.

A estação que agora, sem ela que já foi, não faz sentido algum.

Só cheia de um mundo que ficou para trás.

E que por isso não é mundo nenhum.


Parou.

Olhou-se.

Por dentro.

E por dentro não se deixou ficar.

Desatou a correr.


Entrou no carro e mais uma vez o pai

Olha que esse anda bem Não te estiques.


E corria.


Abriu a porta e a chave rodou. Uma marcha atrás e uma primeira à frente Volante de lado Chiar na Estrada e na rua.


Pôs-se a correr por dentro enquanto as rodas corriam por si.

A cidade confusa cuspiu-o para fora Lançado na pista.

Passou os outros todos Em frente Sempre de pé pesado e janela fechada.


Passou horas e horas.

Pontes e Túneis

Camiões e camiões Famílias de putos brincalhões.


As cegonhas e os gaviões.


Os sinais e os tractores Os barulhos e os clamores.

Passou céus e as suas cores O tempo e a dor.

Ninguém o viu ou ouviu Nem ele

Sempre em frente Indiferente ao que o mundo fazia então.

Pronto a chegar lá apenas por sua mão.



O comboio parou a parede que lhe tremia na cabeça.

Os cabelos nos olhos Os olhos fechados E os velhos a ir buscar os sacos.


O cheiro a carril.


A mala pesada das pernas bambas e o desconhecido por conhecer.

Quer ajuda menina, quero sim, obrigado. Se precisar de boleia chame-nos que aqui não há muita. Obrigado é muito gentil. Logo se vê.

Agora quero é sair.



E saiu.

E quando o fez, saudosa de tudo, numa estação vazia De mundo que ainda não se fez,

pensou nele,

E no que não queria deixar partir, partindo ela.


E do meio do desconhecido saltou ele.

Ainda de pulmões nos olhos Ainda de cara vermelha Ainda de coração nas mãos.


O maior sorriso que alguma vez lhe vira surgiu

E com ele a certeza

Que com um pais inteiro pelo meio, não há forma deste meio partir.


E ali sim Esse meio tornou-se coisa nenhuma.

Eram eles sempre um princípio

Que prometeu nunca ter fim.

No tal beijo que aguentava tudo.